sábado, 10 de outubro de 2015

BREVE HISTÓRICO DA RÁDIO VITÓRIA

Rádio Vitória FM
No final da década de 90, quando espalhavam-se pelo país as rádios comunitárias, Marcelino
Vieira entrou na luta de dar voz à comunidade, por meio da aquisição e regulamentação da Rádio
Vitória FM, em parceria com a Paróquia de Santo Antônio e a Associação Comunitária Vieirense-
ACV.
Essa rádio não caiu do céu. Foi espinhosa e árdua sua conquista. Para os que hoje usufruem
das suas ondas e serviços se faz fundamental que saibam quão difícil foi adquirirmos cada
microfone, cada mesa de som, cada CD e cada documento que comprova a sua existência junto aos
órgãos nacionais de radiodifusão.
A Rádio Vitória FM é a maior expressão da vontade popular de Marcelino Vieira e carrega
uma história penosa de luta e conquista de todas as pessoas que até então não eram ouvidas: os
agricultores, professores, comerciantes, grupos pastorais, garis, donas de casa, estudantes e filhos
vieirenses que moravam distantes da família e de sua terra.
Ela é a realização de um dos párocos mais honesto, justo, trabalhador e consciente que
Marcelino Vieira já possuiu: o Padre João Batista Silva de Mendonça, que perdeu a conta de
quantas vezes foi levado à delegacia da cidade por resistir ao fechamento dessa ferramenta popular,
pela ANATEL.
Quem viveu a saga de ver a Rádio Vitória regulamentada sabe contar essa mesma história.
Sabe dizer das inúmeras vezes que os vieirenses correram para a frente da casa paroquial, sempre
que a fiscalização chegava, para apreender os equipamentos. Jamais esquecerei daquelas pessoas
vindas da roça, do açougue(Balau sabe disso), das escolas, que encostavam suas enxadas, foices,
palhas de peixes e livros para ameaçarem virar o veículo da ANATEL.Gritando palavras de ordem,
Marcelino Vieira defendeu com unhas e dentes o produto da sua voz. Ela tem a cara do Padre
Batista, de Ivanúcia Lopes ainda menina, do saudoso João Eudes e seus chocalhos nas
manhazinhas, de Guido Quarto, Branco e Tony Lima, Vanderleia, Levino,Ailson Barbosa, Regio
Fernandes,Luis Bento e de muitos e muitos outros meninos e meninas que, na época, amanheciam e
anoiteciam emprestando suas vozes aos vieirenses e levando cultura, entretenimento e informação a
todos os recantos da cidade.
Cada música que tocava, eram de fitas cassetes ou cds doados pela população. Mais do que
voz, o povo vieirense aprendeu com a Rádio Vitória a construir cidadania. Eram filhos ausentes que
ligavam de São Paulo, Rio de Janeiro e muitos outros lugares distantes, falando da saudade que
sentiam, enviando recados para a família, dizendo de como se sentiam longe de casa, pedindo e
oferecendo músicas aos amores e tomando conhecimento dos acontecimentos da sua terrinha, numa
época em que Marcelino só dispunha de um orelhão na pracinha.
Lembro-me da viagem que fiz à Terezina com 200,00 para, no Congresso Brasileiro de
Rádios Comunitárias, expor sobre nossos desafios e colher experiências exitosas que assegurassem
a nossa rádio e a qualidade dos serviços prestados à população.Lembro-me também do empenho
gratuito dos nossos alunos no resgate da história do município, entrevistando nossos idosos e
divulgando nas ondas do rádio. Todo final de semana, lá íamos nós (Eu, Guido Quarto,Tony ,
Branco Lima, Marcos de Paulo...) Para a residência de Tonheira, Borges, Dona Odete, Seu Antonio
Grande, Seu Vicente Silvino, Dona Amélia de Herculano e outros mais filhos ilustres da terra, com
um enorme gravador emprestado no ombro, gravar entrevistas para logo mais repassarmos as
lembranças e valores do passado. Lembro-me dos “chás de cadeira” que Padre Batista e eu
levávamos todas as vezes que íamos a Pau dos Ferros com os papéis da Rádio.- Junta Comercial,
Escritórios de Contabilidade, Receita Federal... Certa vez, já cansada de esperar para sermos
atendidos, pedi para que Batista se identificasse. Sabíamos que o acesso seria imediato, visto que a
posição social é para muitos, o melhor passaporte. Mas não! Batista sempre me deu lições de
justiça, honestidade e humildade em todas as suas ações.
Alguém já parou para analisar a importância que essa rádio comunitária tem para o vieirense,
para os homens e mulheres simples, cuja alegria maior é ser lembrado no aniversário? É descansar
ao pé do rádio, depois da lida, para saber notícias dos seus e da cidade? É poder rezar, pedir bençãos
e acompanhar as missas, sem ter que se deslocar até a igreja. É poder homenagear alguém que já se
foi, é convidar, é participar, é aprender a arte da escuta e da fala.É trazer o seu mundo e o mundo lá
fora para o pé do ouvido.
A dimensão de ser querido e lembrado navega grandiosa em “ondas como o mar” nas vozes
das crianças, que nem meu sobrenome sabiam pronunciar: “ Fátima Branca, ofereça uma música pra
mim!”. E nas vozes das mulheres maltratadas, um resto de sonho pra sonhar: “Trouxe um real para
você me oferecer a música “ Um homem ideal”. E eu pensava cá com meus botões que naquela
casinha ia faltar o pão pro jantar dos filhos. Não!! Definitivamente o pagamento pelos serviços da
rádio era essa proximidade construída todo santo dia, era esse espraiar das vontades das pessoas
simples. Era esse amor à cidade espalhado aos quatro ventos. Não ganhávamos nada e ganhávamos
tudo: Ganhamos o que hoje somos. Uma comunidade capaz de defender com justiça todo bem que
um dia ela conquistou.
Acredito no jovem de Marcelino Vieira que hoje já tem acesso à universidade na porta da
sua casa; acredito nos professores vieirenses que hoje já tem um sindicato; acredito nas
comunidades rurais que hoje já possuem moto, celular e parabólica; acredito nas donas de casa que
hoje ligam mais a TV que o rádio; acredito nos comerciantes que já possuem o computador para
registro da sua receita e despesa; acredito nas crianças que já desenvolvem e participam de projetos
de leitura. Que todos esses avanços sirvam para a aquisição de mais consciência e fortalecimento da
participação popular, partindo do entendimento de que apesar de vivenciarmos os avanços da
tecnologia, nem todos tem acesso a essas ferramentas; de que para muitos, o rádio ainda constitui o
único meio de conexão à distância, com a sua cidade. Acredito em todos.Acredito mais ainda
naqueles excluídos pelo sistema, naqueles que vivem à margem dessa modernidade, porque nosso
maior erro é acharmos que não mais existe fome só porque nosso prato se encontra cheio. Para
descobrirmos, basta olharmos só um pouquinho além de nós mesmos. Isso devemos aprender

por Fátima  Abrantes

0 comentários:

Postar um comentário

Use a sua liberdade de expressão, mas comente com responsabilidade.

Os comentários anônimos que promovam ofensas pessoais não serão admitidos pela moderação.

  ©VERDADE VIEIRENSE - Todos os direitos reservados.

Template by Dicas Blogger | Topo